9)Curiosidades
locais – o coveiro por vocação.
Um dos personagens meu contemporâneo e
conterrâneo que mais me impressionou foi o coveiro da minha cidade. As crianças
e adolescentes da cidade tinham pavor desse homem; era um sujeito muito
estranho, pois além da profissão de coveiro era, também com a mulher e filhos,
encarregado de limpar as fossas putrefatas da cidade sem esgoto. Há muitas
estórias e histórias sobre ele, mas a que vamos focalizar tem nosso testemunho.
Diferente de hoje, quando o coveiro do cemitério é funcionário da prefeitura
local, naquele tempo o coveiro ganhava por produção: quanto mais defuntos, mais
dinheiro no bolso; quando mais fossas sépticas? limpasse, mais comida
(dinheiro) na panela. Não havia um preço estipulado para enterrar defunto ou
para “esgotar” a fossa, mas ele sempre dizia que as famílias abastadas da
cidade pagavam mais pelos serviços, razão pela qual ele e sua família torciam
para que o defunto tivesse muito dinheiro, e quanto às fossas, com certeza
enchiam mais rapidamente nas casas das pessoas de maior poder aquisitivo. Por
dinheiro o coveiro fazia qualquer coisa.
A
Região do Brasil que mais sofreu influência da religiosidade ingênua do
português colonizador do Século XVI, somado ao feiticismo herdado do escravo
africano e do índio local, foi a Região Nordestina; por isso o homem nordestino
daquele tempo acreditava em alma do outro mundo, em almas perdidas que moravam
nos cemitérios, nas igrejas e vez por outra uma alma aparecia, em sonho, à
noite, pedindo um favor a uma pessoa (viva); esses favores poderia ser uma
missa, a reza de um rosário, pagamento de uma dívida (monetária) contraída
antes de morrer, mas era muito comum a alma aparecer oferecendo “botijas” – joias,
ou dinheiro depositados em potes, jarras de argila queimada, enterrada em
determinados lugares; lembrando que naquele tempo não havia, no interior do
Nordeste, nas pequenas cidades, as instituições financeiras – os bancos. Ia-se
à Igreja quando o padre estava presente, e no cemitério só na presença de
muitas pessoas, normalmente durante os enterros. A maioria das pessoas cortava
caminho para não passar junto ao cemitério, principalmente à noite; o cemitério
da cidade era sempre em lugar isolado, afastado das ruas; os mortos causavam,
nos vivos, verdadeiro pavor. Havia almas “penadas” que permaneciam no mundo dos
vivos pagando penitência dos pecados cometidos, em vida.
Na
Década de 60, quando o coveiro, em pauta, já era um homem idoso, há 40 anos
desempenhando essa profissão, as pessoas (adultos) tinham por ele grande
respeito; afinal ele havia “enterrado” parentes e amigos de todas as famílias
daquele Município e certamente enterraria muitos dos seus conterrâneos vivos,
até mais jovens do que o coveiro; um grupo de jovens que estudava na capital do
Estado veio passar a “semana santa” com os familiares que moravam nesse
Município; a partir de uma hora da manhã do sábado de aleluia, como era de
costume, preparava-se um boneco representando Judas Iscariotes ( o Judas) que
deveria ser malhado, esbofeteado, destroçado em praça público(por ter vendido Jesus Cristo por 30 dinheiros) ao
amanhecer;como, sempre, a brincadeira é um motivo para se consumir bebidas
alcoólicas, principalmente aguardente. O coveiro, inveterado cachaceiro, era o
convidado número um, mas não era adepto da malhação do Judas; vinha apenas pela
cachaça. A brincadeira deveria acabar na manhã do sábado, mas alguém teve a
idéia de ampliá-la até o domingo, acrescentando-se, para isto, outras
brincadeiras e outros motivos para tomar álcool. Os estudantes arrecadaram
dinheiro entre si para dar ao coveiro que deveria cumprir a seguinte missão: à
meia noite do domingo deveria ir ao cemitério e trazer, de lá, um osso ainda
fresco do corpo humano; embora a maioria dos estudantes soubesse que o coveiro
fazia qualquer coisa por dinheiro, alguns não acreditavam que ele tivesse
coragem de ir ao cemitério àquelas horas da noite. O coveiro voltou do
cemitério às 2 horas da manhã da segunda-feira trazendo um fêmur, quando então
os estudantes resolveram dobrar o prêmio para que o coveiro colocasse o osso na
boca, imitando um cachorro e desse uma volta em torno da praça da cidade, com
essa imagem.
Para
felicidade da vida e respeito aos mortos, apareceu o delegado da cidade,
encerrando a brincadeira macabra.
Note
bem: naquele tempo, no interior do Nordeste havia 3 profissionais que eram
tratados com absoluto respeito por estarem envolvidos diretamente com a vida e
a morte – a parteira, o coveiro e o padre.
Transcrito do Informativo " O Veredicto" desta mesma Fonte.
E ducação ambiental também é ciência social, literatura.
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