9)curiosidades locais. Asno, jumento +
eqüino= muar, mulos.
Vamos narrar uma história cômica ou pelo
menos inusitada que teve como personagem um animal de carga e montaria muito
conhecido no Nordeste. Trata-se do “muar”, mulo e mula, animais híbridos do
cruzamento entre os jegues dos dois sexos e o eqüino (cavalo e égua). O muar
filho de jumenta é menor do que o muar filho de égua. São animais que não se
reproduzem, mas tem os órgãos sexuais definidos; o muar tem a resistência do
asno e a força do eqüino, mas são resultados de um cruzamento sexual anômalo,
fazendo com que a reprodução de muar seja menor do que a produção de asnos e
eqüinos.
Na
década de 60 a Ilha de Fernando de Noronha, então território brasileiro e hoje
pertencente a Pernambuco, era uma base militar administrada pelo Exército. Além
dos militares aquartelados havia os familiares dos militares e funcionários
públicos civis, cerca de 3.000 habitantes. Os alimentos, provisões,
mantimentos, equipamentos militares, suprimentos, apetrechos diversos, vinham
do Continente – Recife e Natal, em navios. Fernando de Noronha não tem porto
para atracagem de navios e por isso os navios com provisões para a Ilha
estacionavam á distância de 2km da praia. Do navio até a praia o material vinha
em pequenas embarcações; da praia até os armazéns, nos quartéis, os mantimentos
eram transportados por uma tropa de 20 muares, animais pertencentes ao efetivo
do Exército, tratados com todo cuidado e atenção, e ainda tinham nome e número,
como se fossem soldados.
Poderia
até faltar médico para cuidar da população humana, mas não faltava veterinário
para tratar dos muares. Havia muares de montaria (usam sela) e de carga (usam
cangalha), e também os muares de tração de carroças (e canhões).
A
Ilha é praticamente constituída de pedras e lajedos, com poucas áreas para se
criar o pasto dos animais muares; além disto, é semiárido com índice
pluviométrico variando de 300 a 600mm ao ano, água suficiente, apenas, para o
abastecimento urbano. A ração dos muares vinha também do Continente. Durante o
dia os animais ficavam soltos em um cercado amplo, onde podia caminhar,
exercitarem-se, mas às 6 horas da tarde eram trancados em um curral, onde
pernoitavam, até a hora inspeção médica diária, mas também porque os navios chegavam sempre à noite, e às
6 horas da manhã a carga já estava na praia, pronta para ser conduzida aos armazéns pela tropa de muares.
Quando
o navio se aproximava da Ilha dava três apitos convencionados e já transmitia
via rádio, ou em sinal visual (código Morse) o volume de carga a ser conduzida
aos armazéns. Os soldados tratadores e condutores da tropa de muares notaram
que o muar número X de nome Y
desaparecia do curral, sempre que havia carga a ser transportada, ou seja,
quando havia atracagem de navio. Certa noite os soldados resolveram investigar:
armaram a barraca militar junto ao curral e ficaram de plantão observando o
comportamento dos muares; quando o navio apontou no horizonte o tal muar já o
observava com muita atenção, enquanto que os outros animais permaneciam alheios
ao fato; quando o navio deu o primeiro apito o muar saiu em disparada, pulou a
cerca de arame farpado e se embrenhou no mato; no outro dia os soldados saíram
a procurá-lo encontrando-o escondido em uma espécie de furna em um lajedo, aonde
a luz do Sol praticamente não chegava e, nessa penumbra, a cor da sua pelagem
se confundia (camuflagem) com o ambiente.
Desse
dia em diante o muar ficava amarrado (com cabresto) na estaca do curral, mas
durante o trabalho sempre tinha um comportamento arredio, diferente dos seus 19
companheiros.
Transcrito do Informativo O Veredicto, desta Mesma Fonte.
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