3) O homem da terra - o flagelado da seca nordestina.
Nasci no interior do RGN e até os 20 anos de idade
sobrevivi na zona rural, no sertão. Quando chovia trabalhava na agricultura; na
seca trabalhava na construção de estradas e de açudes. Em 1.955, com 12 anos de
idade, participei da construção de uma estrada carroçável(de terra)ligando as
cidades de Açu e Ipanguaçu. Minha missão era controlar uma porteira (abrir e fechar)
por onde passavam os caminhões carregados com terra, piçarra para a estrada,
das 7 ás 17 horas, de Segunda a sexta-feira. A porteira ficava na cerca que
dividia 2 propriedades rurais que criavam gado á solta; junto á porteira havia
uma casa abandonada onde eu me abrigava do Sol castigante. A porteira deveria
ser aberta logo que o caminhão estivesse no meu campo de visão, evitando,
assim, perda de tempo para o motorista que deveria cruzar o vão da porteira sem
diminuir a marcha; nem sempre eu conseguia a contento e por isso arranjei um
adjutório, trouxe meu cachorro vira-latas para me ajudar nessa tarefa, embora
soubesse que XAREU (nome de cachorro de pobre, no Nordeste) tinha aversão ao ruído
do motor e ao odor da queima da gasolina, certamente porque agrediam sua
audição e faro acurados. Xareu identificava o deslocamento, do caminhão a
quilômetros de distância e começava a latir, tendo a cabeça voltada para o rumo
de onde o veiculo estava vindo; quando o caminhão apontava, a cerca de 200m da
porteira, xareu saia em disparada ao seu encontro e vinha correndo, ao lado,
tentando morder os pneus do caminhão em movimento e depois que o veiculo
passava o cachorro o acompanhava até uns 300 metros de distância. Ao voltar
para junto de mim, xareu dava a entender, no semblante e no movimento do rabo,
que havia cumprido o seu dever. Certa vez, por razões alheias a minha vontade,
não consegui chegar a tempo de abrir a porteira para um caminhão, apesar do
cachorro, como sempre, ter o identificado com 20 minutos de antecedência. Com a
porteira fechada o caminhão parou e esperou que eu a abrisse; foi aí que eu
descobri uma faceta que não conhecia, até então, no meu cachorro: quando o
caminhão parou junto á porteira o cachorro ficou como que paralisado, em
silêncio, olhava para os pneus do caminhão e olhava para mim, como se indagasse
- e agora, o que faço? Moral da história: essa situação lembra bem os políticos
brasileiros que durante a campanha eleitoral tem solução (demagógica) para
todos os problemas do País, mas quando chegam ao poder não sabem como manter o
Brasil em movimento, para frente; normalmente suas atitudes são de estagnação do
País.
Transcrito do Informativo O VEREDICTO. Educação ambiental também é literatura, ciência social.
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